Sobre arrependimentos3 min de leitura

Sobre arrependimentos3 min de leitura

Das histórias que eu escuto, muitas delas trazem em comum um aspecto que considero muito relevante para uma vida com significado. O meu ofício passa por ouvir e dar suporte; sou psicóloga. Em meio a um diagnóstico de uma doença grave ou mesmo à beira da terminalidade, o arrependimento é uma dor latejante.

Essas histórias não são trazidas por um perfil único: chegam de pessoas de diferentes idades, classes sociais, gêneros, que têm o câncer como doença de base, que dizem que não são o que nasceram pra ser.

Tenho percebido que essa fala se apresenta de maneira recorrente entre as causas do sofrimento psíquico relatado por todos os que se dispuseram a adotar uma atitude reflexiva sobre a sua vida, agora atravessada pelo adoecimento.

São pessoas que viveram por muito tempo em busca de atender às expectativas de outrem, de serem aceitas e validadas por suas famílias, por seus pares, por seus colegas de trabalho e que, aos poucos, se distanciaram enormemente de si mesmas. Que arrependimento pode ser maior do que o de não se reconhecer?

“Eu queria ter me casado com o amor da minha vida, mas preferi namorar muitas ao mesmo tempo, para não me sentir preso a ninguém e ser visto pelos meus amigos como um garanhão. Hoje tudo o que queria era poder passar o tempo que me resta ao lado dela…”

“Eu queria ter podido viajar, estudar, conhecer o mundo, conhecer outras pessoas, mas o meu marido nunca aprovou e acabei por não fazer nada disso, para não contrariá-lo.”

“Eu queria ser livre, sem as obrigações da vida doméstica, correndo de um lado para o outro, para manter tudo limpo e organizado.”

“Eu queria que o meu casamento desse certo e insisti nessa relação por longos anos, tolerando violência física e psicológica, tudo em nome de manter a minha estrutura de família.”

Assim como estes pensamentos acima, muitos outros seguem na mesma toada. Não é fácil chegar a estas conclusões, nem verbalizá-las. Nossas escolhas nem sempre nos remetem aos melhores desfechos, mas ainda assim podemos nos manter engajados na expectativa de que tudo, em algum momento, dê certo.

Contudo, a questão é que, em função da necessidade de atender às pressões externas, podemos nos afastar de nossos sonhos e desejos mais genuínos – e sair colecionando arrependimentos. Diante da doença grave e da finitude como destino inexorável, esses relatos refletem a capacidade de enxergar o que, de fato, se revelaria a sua verdade: essas pessoas sentem arrependimento e se referem a sensação de tempo perdido.

A doença foi o alerta que soou fortemente em suas consciências, um alarme de ambulância, um sino de igreja tocando bem alto, que as fez despertar para um olhar mais atento para o modo como viveram até então.

TUDO O QUE ESPERAM É ENCONTRAR UM CAMINHO PARA UMA VIDA COM SENTIDO. TUDO O QUE QUEREM É UMA CHANCE PARA QUE POSSAM SER O QUE DESEJAM SER, DESFAZER ARREPENDIMENTOS.

Fato é que doenças graves ou a iminência da morte têm mesmo este poder. Mas será que precisamos disso para lembrar de que a vida é realmente finita? Será que não podemos parar agora e entender do que podemos nos arrepender de estar fazendo ou para qual lado estamos encaminhando a nossa vida?

Para não perder nem mais um minuto sem refletir a respeito: qual são os seus principais arrependimentos? Dá pra começar a contorná-los desde já? Você tem sido o que nasceu pra ser?

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