O luto por suicídio4 min de leitura

O luto por suicídio4 min de leitura

Todo e qualquer luto é um processo humano, natural e saudável. No entanto, podem existir alguns complicadores nesse desenvolvimento e o modo da morte costuma importar.

O luto por suicídio tem algumas peculiaridades. Mas, claro, nunca há um luto igual ao outro. Podemos falar em algumas tendências de sensações, como culpa, questionamentos sobre sinais, impotência por não ter podido ajudar a pessoa amada, desamparo etc.

A morte impõe muitos silêncios. O suicídio, ainda mais. É a hora em que a maioria do círculo social do enlutado se afasta. Seja a pessoa a se aproximar. Respeite o espaço de quem está em luto, mas permaneça visível e disponível.

MORRE-SE POR CÂNCER, POR DOENÇAS DO CORAÇÃO, POR ATROPELAMENTO. MORRE-SE POR SUICÍDIO TAMBÉM. ESSE NÃO PODE SER UM LUTO CLANDESTINO.

Acolha, ouça, não julgue. Não parta da estereótipos do luto para lidar com quem perdeu alguém por suicídio. Cada pessoa é uma, cada morte é uma, cada vínculo é um.

A psicóloga e escritora Luciana Rocha perdeu o marido dela, o Marden, por suicídio. Ela acaba de lançar o livro “Nem covarde, nem herói – Amor e recomeço diante de uma perda por suicídio” (Gulliver Editora), que conta essa história. O título já nos lembra que, quando o assunto é suicídio, não há juízo de valor que seja bem-vindo. Diz a Luciana:

“As pessoas sabem tão pouco sobre suicídio que não falam por mal. Falam por não saberem o que fazer, falam por se sentirem ameaçadas e fragilizadas. Procuram respostas simplistas para terem a falsa e desejável sensação de segurança, de que “isso nunca vai acontecer comigo ou com a minha família”. Buscam um culpado, um motivo, uma negligência por parte de quem estava mais por perto como uma forma de se protegerem do mal-estar que a situação inspira. Mas nada disso justifica o fato de tudo isso ser muito cruel com os familiares que estão vivenciando essa perda.”

O Tom Almeida, criador do movimento inFINITO, perdeu um amigo por suicídio recentemente. Em um post em homenagem a ele, Tom chama atenção sobretudo para as densas camadas de silêncio que se formam em volta de uma morte assim.

Juliana Dantas

Hoje eu fui ao enterro de um amigo vítima de suicídio.

Sim, vítima.

Vítima de uma doença chamada depressão, que ele teve por muitos e muitos anos. Ele disse a amigas bem próximas que sua alma estava em estado terminal, que ele precisa partir.

Ele se autodenominou um doente terminal e nesta semana sua vida chegou ao fim.

Já vivi outras mortes e tenho me dedicado a este assunto nos últimos tempos. Mas estes dias eu senti na pele que a morte por suicídio é diferente, ela parece mais pesada.

A forma como lidamos faz com que fique muito mais pesada.

O tabu da morte por suicídio é infinitamente maior do que qualquer outra morte. Tem o choque da surpresa, mas é um choque diferente da morte por um acidente, por exemplo.

A morte desse meu amigo não foi anunciada pelos familiares nas redes sociais, o que é bastante comum nos dias atuais. Não vi nenhum post de homenagem, com alguma foto dele, alguma lembrança ou uma declaração de amizade e amor. Toda a comunicação aconteceu em um universo paralelo, quase que escondido.

Havia uma garoa fina e fazia frio esta manhã. O ar que se respirava naquele cemitério foi um dos mais pesados que já respirei. Um ar diferente de qualquer outro velório que eu tenha participado. Havia silêncio, raiva, julgamento, tristeza e embaraço.

Assim que o corpo chegou, todos emudeceram. Alguns bons minutos passaram e todos pareciam pisar em ovos, num silêncio ensurdecedor e desconcertante, que foi rompido por um padre, em uma fala mecânica.

Propositalmente não estou citando o nome do meu amigo aqui, pois existe uma hierarquia no sofrimento e no luto. Uma etiqueta que deve ser respeitada. A dor e o luto da família e dos amigos mais próximos deve ser respeitada.

Que você tenha encontrado a paz que buscava faz muitos anos, meu amigo.

Você foi amado.

Perdoe pelo silêncio, pela raiva e pelo julgamento que estavam presentes nesta manhã. Quero te dizer que havia também muito amor e gratidão por você ter passado por nossas vidas.

Siga em paz.

Tom Almeida.

Esse artigo faz parte da série ✨Amarelo inFINITO. 

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