O luto das mães que perdem seus bebês na maternidade4 min de leitura

O luto das mães que perdem seus bebês na maternidade4 min de leitura

A perda de um filho é considerada uma experiência avassaladora. No entanto, quando bebês morrem durante a gestação ou logo após o nascimento, muitas vezes o luto da mãe é pouco reconhecido pela sociedade – inclusive pelos profissionais de saúde.

Ninguém está preparado para a morte de um bebê. E a gente fala muito pouco sobre isso. Dessa maneira, surgem comentários e atitudes impressionantemente insensíveis de quem está por perto. Em vez do acolhimento, frases vazias e até mesmo violentas.

Naquele momento da morte, não só morre um filho (a): morrem também os sonhos e as expectativas de futuro para aquela criança, para a ampliação de uma família. Morre o espaço que aquele bebê viria a ocupar, há um sentimento de impotência. A dor pode ser intolerável que tende a ser ainda pior quando não há um amparo por parte da equipe de saúde que, na maioria das vezes, não está preparada para acolher esse tipo de situação.

E, como se o caminho do luto não fosse suficientemente sofrido, não há nenhuma diretriz nacional e poucos hospitais têm algum protocolo sobre o tema aqui no Brasil. Ou seja, além do despreparo, não há um padrão de boas práticas a serem adotadas; instituições e profissionais definem como proceder.

É claro que cada caso é único e merece um olhar atento e sensível conforme a demanda familiar e a realidade apresentada, mas um atendimento psicológico, por exemplo, é capaz de dar voz à dor daquela mãe, criando um espaço seguro para expressar as emoções em um momento em que tudo transborda.

Não são poucos os relatos de mães que tiveram suas dores silenciadas por atitudes de negligência. Mães que tiveram o direito de ver seus filhos negado, de não saberem a causa da morte e ainda ficarem em ambientes em que outras mulheres estavam com seus filhos vivos. Elas ouvem os choros, veem os momentos de amamentação. Uma violência sem tamanho.

Negar a existência daquela criança que morreu não é um caminho saudável para o processo de luto, muito pelo contrário. Preservar a memória do filho é uma maneira possível de enfrentar as dores do futuro, nomeando não só aquele ser vivo, como valorizando uma história de amor que será eterna, apesar da ausência física. Guardar fotos, registros, roupinhas e outros objetos, pode ser importantes para os pais e familiares darem contorno para aquela existência. Ainda que curta, extremamente importante.

É preciso reconhecer a existência daquele bebê.

As despedidas também se fazem necessárias, porque o arrependimento pode causar traumas futuros.

Como as mães podem ser bem cuidadas em momentos da perda no hospital?

  • Sendo orientadas e acolhidas com humanidade e empatia pela equipe de profissionais de saúde;
  • Tendo o direito de segurar seu bebê nos braços vestido conforme todos os bebês do hospital;
  • Recebendo acolhimento psicológico (inclusive após a saída do hospital);
  • Tendo direito à privacidade em um quarto isolado para elaborar o luto ao lado dos familiares;
  • Não tendo seus processos acelerados;
  • Não escutando frases prontas que minimizem sua dor;
  • Sendo ouvida e respeitada.

Profissionais de saúde também precisam de treinamento para lidar com esse tipo de situação: só assim estarão preparados para cuidar das dores dessas mães.

O Projeto de Lei 1640/2022, que institui a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, acaba de chegar à Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados. Pelo texto, ficaria garantido o tratamento humanizado a mães e pais que perdem o filho durante a gestação, no parto ou nos primeiros dias de nascido (luto gestacional, óbito fetal e neonatal). Trata-se de uma alteração na lei que versa sobre o assunto, datada de 1990.

A análise da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania terá caráter conclusivo, sem a necessidade de deliberação do Plenário.

Estaremos, então, caminhando para um futuro mais digno para as mães enlutadas?

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