O arrependimento não precisa contracenar com a morte2 min de leitura

O arrependimento não precisa contracenar com a morte2 min de leitura

Na minha experiência trabalhando em cemitérios presenciei, inúmeras vezes, um sentimento: o arrependimento.

O arrependimento de não ter ficado mais tempo com aquela pessoa que havia acabado de morrer, o de uma viagem não viajada, o de uma dança não dançada, o de uma conversa não falada…

E esses arrependimentos ganhavam mais e mais corpo a cada decisão necessária quando perdemos alguém. E quantas são as decisões numa hora dessas, hein?

Parei um dia para fazer uma lista, item por item. A princípio, por uma questão prática, de processo interno. Era difícil explicar tanta coisa e tantos detalhes para as famílias sentadas na sala de atendimento do cemitério com um olhar vazio e triste que dizia “e agora?”. Pensei que ter uma lista pudesse ajudar na explicação, facilitar a compreensão, evitaria esquecer os detalhes.

Mas o mergulho foi profundo, porque a cada tópico ia lembrando da verbalização de cada arrependimento que eu já havia visto: “não sei o quê escrever nessa faixa da coroa de flores, o espaço é tão pequeno e tem tanta coisa que quero falar”, “não sei se meu pai queria ser cremado, nunca conversamos sobre isso, nunca conversamos sobre muita coisa”, “não sei qual a roupa preferida da minha mãe”...

Cheguei em 90 decisões.

Noventa decisões no exato momento de quem entra num mundo muito desconhecido, de quem começa a viver uma nova vida sem aquela pessoa.

Muitas decisões dessa lista são práticas e racionais, como certidão de óbito, pagamentos, documentos, qual empresa contratar para fazer o serviço, comprar um jazigo ou fechar um serviço de cremação, definir o horário etc.

Entretanto, a maior parte é emocional, mesmo quando não parece. Quer um exemplo? A escolha do caixão. Nunca vi nenhum cliente dizer “tanto faz, pode ser qualquer um”. Coroa de flores, música para tocar na cerimônia, velório, obituário, o que escrever na lápide, o que fazer com as cinzas…

Mas nem tudo são espinhos. Às vezes podem ser só flores. Eu também assisti, diversas vezes, a serenidade do dever cumprido. O olhar à minha frente continuava vazio e triste, mas cheio de significado. Eram olhares saudosos de viagens que foram viajadas, de danças que foram dançadas, de conversas que foram faladas e de decisões que foram tomadas.

O ARREPENDIMENTO NÃO É INERENTE À MORTE. NÃO É UM ITEM OBRIGATÓRIO.

Mas, para isso, precisamos aceitar viver já. E viver inclui, no meio de tudo, também decidir como morrer ou perder alguém.

Você que chegou até aqui nesta reflexão comigo… Já se arrependeu de algo não vivido, não dito, não decidido?

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