Luto sob holofote: uma das dores mais espetacularizadas dos últimos tempos reaparece publicamente em novo documentário da Netflix6 min de leitura

Luto sob holofote: uma das dores mais espetacularizadas dos últimos tempos reaparece publicamente em novo documentário da Netflix6 min de leitura

Isabella: o Caso Nardoni é mais um dos exemplos sobre como a imprensa pode ter impacto do luto de uma família

O ano era 2008 e eu era mais uma estagiária do Jornalismo da TV Gazeta. Começando a construir a minha agenda, que tinha pouco mais de um ano de estrada, me vi diante da necessidade de abrir uma página só para o que viria a ser conhecido como o Caso Isabella. Ao assistir ao documentário “Isabella: o Caso Nardoni”, da Netflix, reavivar memórias.

Na minha agenda, ainda encontro o telefone celular de Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella, e até mesmo o ramal da mesa dela na agência do Unibanco em que trabalhava. Também tenho os telefones da avó e do avô materno, do tio materno. Do promotor, do delegado, dos advogados, do próprio Alexandre Nardoni, inclusive.

Para o jornalista, essa é uma rotina normal diante de episódios de grande repercussão. Precisamos conseguir encontrar os entrevistados a qualquer hora, em qualquer lugar. O que é parte do nosso dia-a-dia também acaba por precisar invadir a vida de pessoas comuns, por vezes no pior momento da vida delas. Ali, acrescentamos novas camadas de dor a um luto naturalmente complexo.

Não me lembro de Ana Carolina Oliveira ter sido, em nenhum momento, ríspida – quando estaria em seu completo direito. E é com a mesma doçura que ela fala, 15 anos após o assassinato da filha, à equipe dos diretores Claudio Manoel e Micael Langer. A mãe de Isabella não critica a imprensa, apenas relata parte dos dias em que se viu cercada por repórteres, fotógrafos e cinegrafistas.

Enquanto histórias de crimes chocantes instigam a curiosidade e a ira da população e movimentam as instituições, os familiares das vítimas estão passando por lutos agudos. O luto é um processo humano, natural e saudável diante de uma quebra de vínculo. Mas, em casos como o da morte de Isabella, tudo acontece junto: o impacto da notícia da morte em si, a violência do ato, a abordagem da imprensa, o processo de rituais fúnebres, o envolvimento com agentes do sistema judiciário, os trâmites burocráticos etc. Por vezes, o julgamento dos suspeitos demora. A história se arrasta, o luto vai ficando disforme.

LUTOS JÁ SÃO DUROS POR SI SÓ. COM HOLOFOTES, TENDEM A SER IMENSURAVELMENTE PIORES.

A espetacularização daquela dor partia de todos os lados. No longa, inclusive, é destacado o fato de que um dos depoimentos de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá foi marcado justamente para o dia em que Isabella completaria seis anos de idade – nem um mês após a morte. Eu, naquela mesma condição de mera estagiária de jornalismo, estava lá. Em frente ao 9º Distrito Policial de São Paulo, eu era mais uma em meio a um mar de gente alvoroçada.

Estávamos ávidos por garantir imagens que ilustrariam telejornais, jornais impressos, revistas e conteúdos online. Até briga entre fotógrafo e cinegrafista aconteceu. Atrás do nosso aglomerado, outro: o de populares. É o jeito que chamamos pessoas comuns que se sentem compelidas a sair de suas casas com a necessidade de ver de perto o desenrolar dos acontecimentos.

Por alguma razão, em casos assim, há alguns clássicos: alguém vestido de anjo ou atado a uma cruz, gritos por “justiça, justiça!” e espécies de hinos de guerra adaptados à ocasião. Naquele dia, um tempero extra: uma senhora levou um bolo feito por ela mesma, que seria de aniversário para a vítima, com a inscrição em glacê “saudade, Isabella”.

No documentário, me parece que Ana Carolina Oliveira se divide entre a gratidão pela compaixão coletiva e a impossibilidade de viver um luto com privacidade. Desenhou-se um luto coletivo por identificação, a Isabella era um pouco filha, irmã, prima, sobrinha de todos nós. “Parecia final de Copa do Mundo”, relembra a mãe de Isabella sobre os dias de julgamento dos criminosos.

Depois de anos trabalhados em redações de jornalismo diário, decidi me especializar em cuidados paliativos, morte e luto. Algumas vezes me perguntei como estaria Ana Carolina Oliveira, aquela jovem que eu conseguia encontrar por meio de vários números de telefone. Me pergunto em que momento ela pode ter começado a ter um luto de maneira mais privada. Em que momento não esteve na posição de entrevistada, de testemunha, de ex-companheira de Alexandre Nardoni? Em que momento pôde ser exclusivamente a mãe enlutada de Isabella?

Para a gravação do documentário, Ana Carolina precisou pesar o impacto não só nela, como na família, especialmente nos filhos. Miguel, de 7 anos, e Maria Fernanda, de 3 anos, sabem que têm uma irmã mais velha, mas desconhecem as circunstâncias da partida. Entre os prós e os contras, a mãe dos três decidiu seguir em frente com a produção.

Muitas vezes evitamos, mas as pessoas enlutadas costumam precisar contar e recontar as suas próprias jornadas. “Não acho que seja um desfecho da história, acho que ela será contada de uma outra forma”, diz Ana Carolina. “As pessoas, talvez, me escutem de uma forma como elas nunca ouviram.”

Nem os 15 longos anos após a morte de Isabella, nem o nascimento de dois novos filhos, nem a condenação dos assassinos, nem a condensação dessa história em um documentário são capazes de fazer com que o verbo “superar” seja conjugado – assim como em luto algum. O filósofo americano Thomas Attig, especialista no tema, é um dos que ponderam que o luto não acaba. Para ele, no começo “somos” a dor. Algum tempo depois, passamos a “ter” a dor. Lembro também do depoimento de uma mãe, identificada como Fernanda, que perdeu seu bebê e falou ao livro “Como lidar com o luto perinatal”, de Heloísa de Oliveira Salgado e Carla Andreucci Polido: “Têm dias em que não dói. Têm dias em que arranha. E têm dias em que parece que você vai morrer de tanta dor. Porque essa dor não passa, apenas muda de cor.”

“Óbvio que 15 anos depois toda aquela dor é mais branda, mas ela existe. Eu me tratei muito para chegar no nível em que estou hoje e poder falar do assunto.”, conta a mãe de Isabella.


Essa conversa não termina aqui.

“O que a imprensa tem a ver com a morte e o luto” é um dos episódios INÉDITOS do podcast Conversas Sinceras que você poderá ouvir no Festival inFINITO – Ano 6.

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