As histórias de luto no filme A Sociedade da Neve7 min de leitura

As histórias de luto no filme A Sociedade da Neve7 min de leitura

Produção sobre a Tragédia dos Andes escancara os diversos tipos de luto que os sobreviventes precisaram enfrentar enquanto batalhavam pela própria vida

Por Juliana Dantas

“A Sociedade da Neve” está há pouco tempo na Netflix e já está causando impacto nos telespectadores. Nos últimos dias, chegou a alcançar o top 1 mundial de filmes mais assistidos na plataforma. 

A produção, embora dramatizada, tem os dois pés fincados na realidade, oferecendo detalhes precisos do drama de um acidente aéreo no lado argentino dos Andes, em 1972. No próximo dia 10 de março, o Oscar revelará se a produção dirigida por J.A. Bayona levará as estatuetas de Melhor Filme Internacional e também de Melhor Maquiagem e Penteado.

Os vários tipos de luto

A aeronave saiu de Montevidéu com destino a Santiago: o time de rugby Old Christians Club jogaria na capital chilena. Entre os atletas, seus amigos, seus familiares e tripulação, havia 45 pessoas a bordo. 

Os 16 sobreviventes olharam nos olhos de muitas mortes diferentes: algumas pessoas morreram quando o avião se partiu, ainda no ar; outras, minutos, horas ou dias após a queda; e uma parcela após semanas tentando resistir. Foram 72 dias até o resgate.

Aqueles que não morreram na hora, precisavam processar vários lutos simultâneos. Era um luto diferente para cada perda. Ao mesmo tempo em que batalhavam pela própria vida, o coração estava pesado pelos que se foram e também pelos que estavam em condições mais delicadas. Desenhou-se, ali, um luto antecipatório: todos os sintomas de luto estavam se delineando, mesmo diante de pessoas vivas. Além disso, havia um pesar pela magnitude do acidente, pelas perdas coletivas, e também um amargor particular pelos mortos que eram mais íntimos de cada um.

As baixíssimas temperaturas da neve acabam por ilustrar as sensações de perda diante de uma situação trágica. Ficamos congelados; ora totalmente paralisados, ora buscando quebrar as camadas duras da superfície.

A finitude escancarada

A partir do momento em que o avião cai na neve, cada pessoa vai encontrando o seu papel. Foi como uma sociedade sendo configurada do zero. Há quem tenha habilidades voltadas para os socorros, há quem vá organizar os ambientes, há quem vá avaliar as condições de alimentação e há quem vá separar o espaço dos mortos. Os cemitérios e os memoriais são uma necessidade na vida humana.

A morte se apresenta com diversas faces. A presença dos corpos e a possibilidade real de cada um ali morrer a qualquer momento ditam o peso do tempo. Não havia como fugir da consciência concreta da finitude.

A vida como era conhecida não existia mais. As lacunas passaram a ser imperativas. A sensação de desaparecimento iminente era sufocante. A saudade de casa e da família apertavam o peito e muitos escreviam cartas para aplacar a dor – e também por saber que talvez nunca mais revissem quem amavam. A dor da incerteza. O luto, ali, também era o luto de si mesmo. É impossível sair igual de uma experiência assim.

Canibalismo

O canibalismo talvez seja a tônica mais relevante da história. Os dilemas que se apresentam quando seres humanos se dão conta de que precisarão se alimentar de outros seres humanos para sobreviver são instigantes. Podem ser observados pelos prismas do Direito, da Filosofia, da Ética, da Espiritualidade, das convicções pessoais e morais etc. 

Um corpo é só um corpo ou um corpo carrega consigo uma história? Seria falta de respeito comer carne humana com o objetivo único e exclusivo da sobrevivência? Ao nos alimentarmos de outro ser humano, perdemos a nossa humanidade? É pecado?

Em situações extremas, as regras e os padrões sociais são colocados em perspectiva. No filme, há uma passagem decisiva que é o sinal verde para que os sobreviventes passem a se alimentar da carne dos colegas mortos. Diante dos questionamentos, vemos como manifestar determinadas decisões em vida pode fazer toda a diferença para quem fica.

A resistência do impossível

A história que contamos para nós mesmos pode ser uma tábua de salvação. Nos processos de perdas e lutos, construir uma narrativa é um dos jeitos de nos organizarmos mentalmente e emocionalmente.

As incertezas agudas que os passageiros do Voo 571 da Força Aérea do Uruguai atravessavam eram cruéis. Para os sobreviventes, uma avalanche de interrogações: que sentido tem tudo isso? O que é Deus? O que é fé?

No luto, o ser humano tem uma demanda por construir significados. É também um jeito de sobrevivência. As narrativas de passado, presente e futuro precisam minimamente se encaixar, agregando alguma sensação de previsibilidade. As novas experiências que serão vivenciadas a partir da perda dependem disso e fazem parte disso. 

Um dos personagens deixa claro que seguir vivo é um jeito de honrar um amor que se foi. Alguns conversam mais, outros são mais calados. Há os que choram e os que não derramam uma única lágrima sequer.

Os rituais

Chama a atenção como é natural do ser humano a necessidade de ritualizar processos importantes. Desde onde e como criar um ambiente para descansar os mortos até como e quando transformar corpos em alimento.

Ainda seguindo a divisão de papéis adotados por cada sobrevivente, é emocionante ver o homem que faz questão de colecionar objetos e símbolos que representam aqueles que partiram ou mesmo o desastre em si. O cuidado de guardar e catalogar cada item é um trabalho que ajuda a não perder a humanidade. Lembranças concretas nos auxiliam a ter a que nos agarrar, até de maneira literal.

Na sociedade que se criou na neve, nem todo mundo é totalmente confiante e nem todo mundo é completamente vulnerável. Essas duas características são pendulares em cada indivíduo, a depender dos momentos coletivos ou pessoais. No desenrolar dos dias, a musculatura de acolhimento vai se fortalecendo, e um puxa o outro quando há a necessidade.  

A vida depois de tudo

O site Aventuras na História elencou algumas passagens que aconteceram na vida dos sobreviventes e das pessoas enlutadas após o resgate. Um fato que não é contemplado pelo filme é o de que os restos mortais que estavam na neve, permaneceram na neve. Uma equipe se dirigiu ao local e criou uma vala comum. Por questão de segurança, os familiares não puderam acompanhar – o que pode ter sido um agravante para o luto.

Prova disso foi uma ação aguda do pai de uma das vítimas do acidente. Ricardo Echavarren não se conformou e foi até o local da tragédia para tentar recuperar o corpo do filho. No entanto, por ser uma ilegalidade, foi acusado de roubo de túmulos. Apenas um tempo depois é que ele foi legalmente autorizado a realizar o funeral para o filho.

Dois outros fatos ainda explicitam a necessidade humana de ritualizar e honrar os próprios mortos. Um deles é que um obelisco foi instalado no lugar da queda da aeronave. A iniciativa dos familiares das vítimas conta com o nome de todos os passageiros e tripulantes que morreram naquela viagem. Também há um museu na capital uruguaia que preserva as memórias do acidente e de quem partiu. Estão expostas roupas dos sobreviventes e um amplo arquivo que remonta a história da Tragédia dos Andes. 

Um dos sobreviventes da tragédia, Nando Parrado é bastante ativo nas redes sociais e fez um post em que celebrava as indicações do longa ao Oscar 2024. Ele também concedeu recentemente sua primeira entrevista após a estreia do filme. Segundo Nando Parrado, antes havia uma rachadura entre as famílias de pessoas que voltaram vivas e de pessoas que morreram. “Hoje, 50 anos depois do acidente, as famílias dos que não voltaram abraçam as dos que voltaram”, diz.

Foto: Divulgação/Netflix

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